sábado, 7 de fevereiro de 2009

Apenas um ponto de vista...

Todos os dias, ao escrever, penso sobre o seu primeiro contato com esse blog. A sua idade, a condição psicológica, moral e social que estará vivendo, o seu interesse em aprofundar o conhecimento sobre a sua história, a nossa história.
Ouvi muitos elogios, apoios incondicionais, mas também críticas por estar expondo publicamente algo tão pessoal e incomum. Algumas pessoas me questionaram, preocupadas, sobre o impacto que tudo isso te causaria, por ter um início “triste e injusto”. A idéia deveria ser apenas te contar o que tem de belo nisso tudo, o seu nascimento, o meu amor infinito por você. O mundo cor de rosa. Mas isso não seria leal com nenhum de nós dois. Não seria eu, nem você. Não poderia representar tudo que envolve a sua existência e a minha condição atual, e quem sabe até futura. A minha proposta é exatamente assegurar que nossas memórias não serão deturpadas, violentadas e depois assassinadas pelas mentes férteis e esclerosadas com o decorrer do tempo.
Só eu posso narrar a nossa história, baby. E sei que só nós dois podemos senti-la. E sei que, sendo MEU filho, saberá assimilar tudo de uma maneira favorável para seu crescimento pessoal.
Não agradei aos gregos, mas causei satisfação aos troianos.
Pelo menos ousei algo, saí de trás do escudo da vergonha e não aceitação e apostei. Espero ter jogado certo! Afinal, as moedas de ouro tornaram-se raras...
Depois de tudo o que aconteceu, Anachin, eu não poderia encolher os ombros, juntar as mãos, abaixar a cabeça até o queixo encostar no peito, e soltar aquele sorriso amarelo para a vida. Aí, sim! A vida poderia zombar de mim...
Um dia, há quatro anos, resolvi apontar o dedo na cara do destino e desafiá-lo para um duelo mortal. Até hoje lutamos, não há vencedor. Ainda...
Às vezes penso que talvez fosse mais fácil se eu não tivesse ousado tanto, mas a covardia não faz parte da minha natureza. Mesmo quando eu sabia que sairia perdendo, eu apostava. Hoje até acredito que isso simboliza uma parte ignorante do meu caráter. Não saber recuar...
E confesso que tenho receio de que você seja como eu, como uma maldição genética. Espera... Será mesmo maldição? Talvez eu esteja apenas observando a situação do lado errado. Um diagnóstico equivocado. Se algum dia me considerarem louca, a minha objeção será fatal! A loucura é um ponto de vista... Mas admito que até eu mesma, às vezes, acredito que estou delirando.
Sabe, filho... A cabeça dá voltas, nó cego de marinheiro. Pensar em desistir sempre é uma opção sedutora. Mas quer mesmo saber? JAMAIS!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A 144 bpm

Estamos entrando no oitavo mês, quase reta final, e todos ainda tentam sentir-te mexendo. Ninguém consegue...
Eu já avisei, já disse, mas não desistem. Passam a mão na barriga, massageam, conversam com você, esperam algum sinal de vida, mas nada adianta. Você só aparece para mim! Quando isso acontece é que tenho a certeza de que nossa ligação está acima de uma relação maternal. Nossa convivência se faz necessária por motivos espirituais, talvez um carma até, compromisso de vidas passadas, promessas não cumpridas que precisam ser realizadas agora, creio mesmo nisso.
Todas as noites, ao me deitar, reservo alguns minutos de conversa com você. Aliso a minha barriga, tento sentir alguma parte do seu corpo, experimento palavras e tons de voz que te fariam mais agitado. Sempre dá certo! Uma noite te chamei e não obtive sucesso na minha busca. Então pus a mão num ponto do lado direito da barriga e disse bem alto “my baby!”, e você deu um chute muito forte. Ri demais, começamos a conversar. Perguntava-te coisas, e você prontamente respondia com mais chutes. E o melhor de tudo é que sempre acertava nas respostas.
Confesso que me divirto quando digo a todos que meu Anachin só quer mexer para mim, a mãe dele. E para mais ninguém! E isso se tornou um desafio para alguns...
Há quinze dias estava sem contato virtual, baby. E isso foi bom para nós dois. Eu fui “forçada” a me desligar do mundo e me dedicar apenas a você. Saimos, compramos utensílios para o seu enxoval, nos divertimos na piscina, conversamos, relaxamos bastante! Agora que a minha rede voltou ao normal posso escrever novamente. Mas precisávamos desse tempo...
Refleti, analisei toda a situação por diversas vezes, sofri muito! Ri alguns momentos com um alívio repentino por loucas conclusões. Tive tempo de juntar tudo, repicar e jogar para o alto, perceber a chuva de ilusões caindo sobre a minha cabeça. E depois catar os pedacinhos em todos os cantos... O ritual se repetiu todos esses dias. Uma brincadeira perigosa, cheia de armadilhas e incógnitas, recheada de enigmas, engenheira por si só. Tomou vida própria, construiu e demoliu as minhas bases mais de trezentas vezes por dia. Deixou-me tonta de tanto pensar, me derrubou com rasteiras da capoeira mais traiçoeira. Para levantar custou sempre mais esforço... Como dizem na Bahia “para descer todo santo ajuda!”.
Ao final do dia senti o corpo cansado, pesado, desmembrado. A mente já não acompanhava mais as minhas vistas. Melhor descansar nos braços de Morfeu e desfrutar dos sonhos que já não tinha há tempos. Sonhos coloridos, surreais e descompromissados da minha infância. Mas a consciência me traiu e me trouxe pesadelos impiedosos. Não tive trégua! A vida deu seu recado. E fez questão de ter a certeza de que a mensagem foi recebida como deveria.
A realidade é um só: VOCÊ ESTÁ CHEGANDO, ANACHIN!
O resto... É RESTO!
26 de janeiro, dia de médico, de acompanhar seu crescimento. Dois meses da previsão para seu nascimento e você já estava com 42cm e 1,7kg. Seu coração batia a 144bpm, você estava perfeito! Você é perfeito! Não pode imaginar o meu orgulho em ser a sua mãe!
02 de fevereiro, dia de Iemanjá na Bahia. Uma das maiores festas populares da cidade de Salvador acontecia e nós recebemos um recado dela na noite anterior. Um sonho misterioso, o mar, uma rede, o peso de uma onda interminável sobre as minhas costas. A areia parecia mais forte após o impacto com meus joelhos. O mar me expulsou com firmeza, agressivo. Iemanjá não aceita dúvidas como oferenda...
05 de fevereiro. Descanso. Decidi dormir o dia inteiro, delirar, até desviar a atenção para desejos ultrasecretos dos meus tempos dourados. Quantas vezes sonhei com Peter Pan e o Capitão Gancho? Nossa... Tom e Jerry! Até mesmo o Roger Rabbit! Ahahahaha! Seria muito bom voltar a revê-los... Ouvi risadas da Gigi na varanda da casa e não consegui me concentrar mais, queria participar da festa. A Gigi sempre me faz esquecer por algum tempo que os meus problemas realmente existem. A sensação que tenho quando a admiro é a de que estou no lugar certo, com a pessoa certa, no momento certo. Nem posso imaginar como será a minha primeira vez com você. Mas uma certeza eu tenho: O MUNDO VAI PARAR, PARA SEMPRE!
As suas 144 batidas serão o nosso ritmo, a nossa velocidade. Eu posso senti-las sempre que enconsto a mão na minha barriga. Tantas pessoas já me contaram suas experiências como mãe, as suas emoções indescritíveis ao primeiro contato, mas sinto que nada disso poderá se comparar ao nosso momento. Cada caso é um caso, cada história tem a sua importância, e sei que no meu mundo emocional vivência alheia nenhuma poderá ser válida. Vamos construir tudo de novo...
Menos de dois meses, filho. Contagem regressiva para uma queda livre. Um salto sem pára-quedas, o desafio mais temido e o mais esperado da minha vida...

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um mundo nada subversivo

O alarme despertou às cinco e meia da manhã. Nós tínhamos um exame importante para fazer hoje, filho. Na verdade, quatro. As minhas idas a Salvador se resumiram a médicos e testes rotineiros, nada mais...
Após o laboratório fui a uma delicatessen para um rápido desjejum e, de repente, vi da janela uma confusão na esquina. Uma mulher caída, toda de branco, com um bolo de dinheiro na mão. Duas pessoas correram para socorrê-la, uma guardou o dinheiro para que ela não fosse roubada, a outra a virou de barriga para cima na tentativa de reanimá-la. Em menos de dois minutos e a rua estava tomada de gente curiosa, uns oferecendo ajuda, outros apenas queriam assistir a tragédia e provavelmente esperavam por uma notícia fatal.
Adoramos o fatalismo, essa condição humana viciada em terror e dramas. Qualquer fato triste nos prende mais a atenção, estimula nossa curiosidade e, numa visão até positiva, nos faz assimilar melhor a realidade.
Continuei a beber o suco de laranja e uma viatura já tinha chegado, fechado a esquina e afastado algumas pessoas. Após uns quinze minutos levantei-me e fui embora. Encontrei com seu avô no banco e passamos por lá de carro novamente uns vinte minutos depois, a mulher ainda estava deitada sem nenhum sinal de consciência...
Nunca saberei se ela sobreviveu...
Estou tomada de tristeza hoje, filho. Não por causa daquela cena, admito. Mas porque percebo a cada dia mais o quanto somos frágeis. Para morrer realmente basta estar vivo! Hoje eu era espectador, amanhã poderei ser a personagem principal. E a vida continua...
Nunca saberemos quando será nosso último dia. É preciso correr contra o tempo. Correr, não! Voar! Ultrapassar a velocidade do som, da luz, da vida! Não deixar nada para o dia seguinte, pensar antes de agir. Não pensar também é uma alternativa inteligente e mais prática! Optar por ser generoso ou egoísta, bom ou ruim. Ser consciente ou delinqüente, explorar o Id do seu cérebro ou aperfeiçoar cada vez mais o Superego.
Eu já escolhi algumas vezes, filho. Já fui transviada, desapegada, descrente dos laços e obrigações espirituais que me motivaram a voltar para este mundo nada subversivo. Acertei de menos e hoje tenho que conviver com os meus erros. Não acompanhei as leis naturais. Fui feliz, sim! Mas também me desgastei em muito pouco tempo... Relutei, preguei novas idéias e fui condenada. Senti-me como as bruxas da Santa Inquisição, réu sem qualquer motivo forte! E daí veio a revolta muda na minha cabeça. Os meus pensamentos se voltaram para uma revolução, uma guerra eterna entre os padrões e meus desejos. Não aceitei o discurso do meu professor da universidade sobre sermos todos iguais, instrumentos da mesma pós-modernidade, vítimas dos mesmos meios e ideais de consumo. Estava enganada! Ele já tinha vivido muito mais do que eu e sabia o que estava dizendo. Provavelmente não porque se especializou em metodologia científica e comportamento social, mas porque algum dia já foi como eu, um revolucionário falido. A bandeira é forte, mas a muralha que envolve essa realidade construiu alicerces muito mais resistentes...
Há algum tempo, para uma mulher na minha situação, o mundo seria impossível! Um esconderijo na floresta mais fechada seria a única solução. Hoje é tolerável, mas não menos condenável quando me viro de costas. Foi difícil voltar ao Brasil. Foi terrível encarar os olhares de decepção e, de alguns, até o desprezo. Foi triste perceber em algumas pessoas próximas a satisfação pela minha “derrota”. Afinal, voltei sozinha, grávida e sem estrutura financeira suficiente. Se não fossem os meus pais...
Engoli, calada, comentários do tipo: “os filhos de Jorge realmente não deram para nada! E agora? O que será dessa menina? E o pai dessa criança?”
Uma amiga da minha mãe foi capaz de me dizer que nunca imaginou que isso aconteceria com uma pessoa como eu, que sempre pousei de firme e independente. Inclusive me usou como exemplo para os filhos, para que nenhum deles repetisse o meu mesmo erro. Ninguém pode imaginar o que sofri quieta, no meu quarto. Quantas noites em claro, chorando, caindo em desespero e vergonha. E isso ainda acontece, filho. Confesso!
Já desejei muito estar numa situação semelhante à daquela mulher, caída, desmaiada e inconsciente. Quantas vezes idealizei uma morte repentina e tranquila, num cenário calmo, na minha cama... Perdoe-me, Anachin. Mas a euforia em ter-te dá espaço para o desânimo, às vezes...
Mas logo me lembro do seu perfeito rostinho, em todos os sonhos que já nos encontramos, e a decepção por causa dessa mentalidade humana e primitiva evapora! Que se explodam os pessimistas! O inferno tem espaço vazio suficiente para pessoas tristes e terríveis! Como essas que se lambuzaram com o meu sofrimento, com fofocas e comentários maldosos. Como aquelas pessoas que assitiram o episódio de hoje apenas para alimentar seus olhos famintos de desgraça alheia e continuarem suas vidas medíocres. A realidade machuca, Anachin. Não posso te esconder que você está chegando num mundo onde existe uma batalha travada entre zumbis sanguinários e anjos do apocalipse.
O alarme despertou às cinco e meia da manhã. Nós tínhamos um exame importante para fazer hoje, filho. Na verdade, quatro. Mas um pesadelo me pareceu tão real que preferi não levantar da cama...

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

"Great songs never leave us, on a jet plane or otherwise..."

John Denver.
O conheci ainda muito jovem através dos cds do meu pai. Foi por causa dele que descobri a minha paixão por country music. Com ele que chorei muitas vezes quando estava triste e sorri quando senti alívio e felicidade. Ainda é assim...
Inexplicável como suas músicas tocam o meu íntimo, dizem coisas sobre a minha vida e exploram meus sentimentos. Sua voz... Ah, a sua voz me transmite paz de espírito mesmo quando sou traída e devastada por meus pensamentos. As minhas memórias com John Denver são magníficas!
Ele esteve presente quando senti a perda do meu primeiro amor, quando quis dizer adeus a algumas pessoas que deixei no Brasil em 2006, quando me senti insegura nos primeiros meses em Londres, quando me arrumava para o trabalho, as baladas, o Oneill’s! Esteve presente quando voltei ao Brasil e permaneci por seis meses sentindo falta dos ares e costumes europeus, quando decidi retornar e recomeçar a minha vida na cidade que escolhi para viver, quando reencontrei o seu pai e construímos uma história relâmpago! Quando descobri você... Quando tive que esquecer de mim e decidi vir embora novamente para o Brasil cinco meses após a minha volta para Londres.
Quando me despedi do seu pai, sem imaginar que poderia ser para sempre. Um adeus que eu entendi como “até logo!”
Quando realizei, já no Brasil, que estava sozinha e me sentindo abandonada.
John Denver está presente até hoje na minha dor, na decepção e desilusão... Ele também está nos meus planos para nós dois, baby!
Ele nunca esteve tão perto de mim quanto no dia em que decidi voltar. Eu estava no Hyde Park com o seu pai e, após uma dura e longa conversa, levantei-me e liguei para seus avós. Contei que estava difícil permanecer em Londres grávida e, por isso, voltaria para casa. Nao pude conter o choro e as lágrimas escorriam por meu rosto de uma maneira incessante. Eu finalmente tinha entendido que não teria o apoio necessário se ficasse lá e me conformei. Foram lágrimas de conformismo e dor, dois sentimentos que não deveriam nunca existir! Seu avô, como sempre maravilhoso, sem perguntar motivos, me disse: “Filha, estarei aqui esperando por você. Eu prometo que irei cuidar e amar seu filho como amo a você. E nada lhes faltará enquanto eu estiver vivo! Só te peço, minha filha, que não chore, por favor...”. Sua avó, mais fria por natureza, mas não menos preocupada e sentida, me perguntou se tudo estava bem conosco, para eu me cuidar e voltar em paz.
Seu pai assistia a tudo de fora da cabine telefônica e, ao fim da ligação, abriu a porta e me puxou com toda a força para os braços dele. E choramos juntos, por bastante tempo. Tudo decidido! Uma semana depois eu estaria no Brasil, sozinha...
Do parque então começou a despedida, e numa loja de cd encontramos John Denver novamente. Por um segundo esqueci de todo o sofrimento e seu pai, com o sorriso mais familiar que eu pude identificar nele depois de um mês, tocou na minha barriga e disse: “You’re beautiful! The baby is there, I can feel it! You’ll be so beautiful...”. E me deu um beijo cheio de amor. Sinto muito a falta daquele momento na loja...
Nosso destino então foi a minha casa, o meu quarto, todas as nossas lembranças naqueles cinco meses que estivemos literalmente juntos. Então eu quis reencontrar John Denver e pus o cd que havia comprado para tocar. A primeira música, “Leaving On A Jet Plane”.
“So Kiss me and smile for me
Tell me that you’ll wait for me
Hold me like you’ll never let me go
‘Cause I’m leaving on a jet plane
Don’t know when I’ll be back again
Oh babe, I hate to go...”

Nossa! Ele sempre acerta, filho! Eu e seu pai, abraçados na minha cama, choramos muito! Choramos o cd inteiro, porque todas as músicas diziam algo que nos tocavam a alma. Todas as canções representaram, naquele momento, a despedida mais linda e sofrida, os sentimentos que estavam sendo abortados, as memórias que lutaram bravamente, em vão, para não se resumirem a promessas não cumpridas como agora.
Ao fim da primeira música eu disse a seu pai: “Babe, I hate to go...”
Mas nem John Denver foi capaz, dessa vez, de evitar a minha volta ao Brasil... E eu me senti como na canção “Fly Away”.
“In the whole world there’s nobody as lonely as she
There’s nowhere to go and there’s nowhere that she’d rather be...”
Agora mesmo ele está cantando para mim, no meu quarto, enquanto escrevo para você sobre a sua história. Ele me acompanha nas manhãs quando acordo e lembro daquele dia, quando vou dormir e imagino te ninar com as maravilhosas melodias de suas músicas, quando canto para você reconhecer a minha voz desafinada e cheia de amor, quando dirijo ao me sentir só e angustiada, quando respiro e quando estou apaixonada por meus pensamentos mais loucos e sinceros!
Eu faço questão que a sua primeira dança seja comigo, ao som de John Denver, porque ele representa toda a nossa história juntos. Ele representa o meu amor por você, Anachin.
“I know that life goes on just perfectly
Everything is just the way it should be
Still there are times when my heart feels like breaking
And anywhere is where I'd rather be”
Ele acertou mais uma vez...

domingo, 18 de janeiro de 2009

NÓS

Baby!
Quero te mostrar o quanto sou feliz por ter você...
Nossa história é diferente, mas é a mais linda quando se trata de nós dois!
Olha como estamos lindos juntos! Sete meses e meio e parece que você sempre esteve aqui! Somos Lindos!!!
Eu sempre soube que você existiria, só não imaginava que ocuparia um pequeno espaço físico dentro de mim e, ao mesmo tempo, todo o meu universo!
Amo você, Anachin!




sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A comédia e a tragédia


A reclusão.
Neste exato momento da minha vida ela se faz mais do que necessária. É a minha melhor amiga e minha pior inimiga. Nunca imaginei que poderia passar tanto tempo sem pertencer a um meio social, sem ter muitos contatos com amigos e até mesmo conhecidos, ir a festas, desfilar nos shoppings à procura de algo que, na verdade, não preciso. Sair para dançar, me bronzear nas praias mais badaladas, ser paquerada...
Um simples percurso de Londres a Salvador e minha vida se resumiu a um terreno de pouco mais de três mil metros quadrados em Jauá. Meu mundo, uma rede, uma piscina, um campo de futebol que não utilizo, um quiosque onde acesso a internet, uma varanda onde me localizo agora e escrevo. Uma casa, um refúgio, um esconderijo, um spa, o céu. A claridade incomoda aqui!
O Éden...
O inferno também, algumas vezes...
Os meus pensamentos ecoam em todos os cantos, batem nos muros, fazem a volta e vêm novamente em minha direção como furacões devastadores. Eles gritam! Berram! Soam como o canto das águias sobrevoando o local da caça, parecem com animais feridos e escondidos dentro das árvores. Com medo, com raiva, com dor...
Se assemelham, ao mesmo tempo, a filhotes de passarinhos ainda depenados no ninho, à espera do alimento que chegará no bico da mãe. Aos bichos escrotos que só aparecem à noite, aos insetos que sugam nosso sangue após o pôr-do-sol, aos gatos que saem sutilmente em busca de presas na escuridão.
Confuso! Ao mesmo tempo muito claro...
A grande preocupação do mundo em “Ser ou não ser” não se classifica mais como “A questão”. Posso ser tudo, ou nada! Ja fui tudo, e agora me sinto como um nada... Logo poderei ser mais do que tudo outra vez! Basta uma estratégia diferente na minha mente e meus pensamentos se voltam para um mundo totalmente desconhecido e digno de exploração agressiva! Esqueço as aparências e realizo na minha imaginação coisas jamais ousadas na contemporaneidade. A mente é uma máquina poderosa, especialmente para aqueles que vivem dela... Eu não tenho outro caminho a percorrer no momento, dela me alimento e trabalho o passado, o presente e o futuro. Um cotidiano, ao mesmo tempo uma vida diferente a cada dia, sem interrupções.
A minha cabeça vai explodir! Respiro fundo, e logo a calmaria toma conta... As ondas da mentalidade alienada já não são mais nocivas. A paz reina novamente e tudo volta a ser como imagino a eternidade. Um espaço branco totalmente iluminado, uma luz que machuca as vistas, sem som, sem paredes, sem limites. Confunde os sentidos... Como isso pode representar, ao mesmo tempo, a vida e a ausência dela? Corro como uma alucinada e, de repente, um buraco se abre sobre mim e começam a cair meus velhos e novos pensamentos, colorindo tudo, e me afogo!
Mas não morro...
O conflito, seguido da tranquilidade instantânea quando percebo que nada fiz de errado! Apenas confiei no mundo... Apenas vivi!
Confio em você, filho, como a quebra do sigilo. Confio em você como a bandeira de paz estiada e a revolução por ideais inaceitáveis! A quebra do ciclo... Como o bem e o mau, a linha tênue que separa a razão e a emoção. Porque já não sei mais o que posso ser quando penso que você estará aqui e guiará a minha vida como um pacificador e, simultaneamente, como um gladiador! Você será meu Gandhi e meu Alexandre. Minhas duas faces.
A comédia e a tragédia.
Meu céu e meu inferno...
Meu velho inimigo e o mais novo amigo.
A minha liberdade e o direito de percorrer os universos parelos dos mortais e imortais.
O meu mundo...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

A sagrada colina


Uma Igreja até pequena, mas de uma grandiosidade indescritível, do alto de uma colina sagrada, com a vista para a Bahia de Todos os Santos, completamente iluminada...
Uma escadaria, uma enorme porta que dá acesso à maior demonstração de fé presenciada por qualquer indivíduo...
Objetos e imagens que justificam as sensações de paz e misericórdia...
O choro contido ao ajoelhar-se. O choro não contido ao ler os milhares de agradecimentos presos na parede, as inúmeras curas, milagres e revelações divinas...
A Igreja do Senhor do Bonfim.
Estamos agora na tranquilidade em Jauá, filho. Mas neste exato momento vejo na televisão os baianos comemorando o dia desse Santo, numa celebração rica em crenças populares, folclores e religiosidade, cantando o hino mais emocionante que já ouvi. Tudo se mistura nas escadarias e fica difícil identificar a pessoa mais envolvida. O padre, da sacada, expõe a linda imagem de Cristo crucificado, enquanto os Filhos de Gandhy tocam instrumentos de sopro. Todos os fiéis vestidos de branco, um lindo tapete branco na escadaria. É realmente lindo de se ver!
A lavagem do Bonfim...
Um banho de fé, uma preparação para todo o ano que vai seguir.
A igreja é um dos cartões postais mais importantes da Bahia, conhecida mundialmente. Qualquer turista que chega à cidade de Salvador precisa conhecer essa maravilha e prender uma fitinha benzida no braço, de preferência posta por uma baiana a caráter, e fazendo os três pedidos juntamente com os nós. E não foi diferente com Tammy...
Eu senti a sua emoção desde o momento que paramos o carro. E observá-la orando ajoelhada foi incrível! Não me contive e tirei muitas fotos, inclusive no momento que ela acendeu velas e fez os pedidos. Ela não me contou, mas eu tenho a certeza de que pediu por nós e pela recuperação total do pai. Eu pude sentir a vibração, inexplicável!
Nossa relação estava estremecida por causa de alguns acontecimentos em Londres, mas essa história fica para outro dia...
Vir a Salvador para me visitar e, principalmente, conhecer a ti através de uma ultra, foi uma atitude mais do que merecedora para hoje ser considerada uma grande amiga da mamãe. Nos reaproximamos e nos tornamos confidentes novamente. Confesso que estou muito feliz por isso!
Para selar a amizade, Tammy teve a idéia de prendermos uma fitinha branca na noite de Reveillon, ao mesmo tempo. Então eu sugeri que a usássemos no pé direito, como um símbolo de nova caminhada, de nova vida, uma nova chance. No momento da virada, com os fogos estourando e todos desejando o melhor ao próximo, sentei-me e prendi a fitinha no local combinado. Os desejos? Sim... Secretos! Mas tenha a certeza de que foram todos em sua intenção, filho!
Aqui em casa temos uma tradição para a virada de todos os anos. Sempre somos as mesmas e poucas pessoas, fazemos uma roda de oração, seu avô faz um belo discurso, os outros complementam e todos pedimos, em silêncio, por um mundo melhor. Após isso, no momento da grande comemoração e com o estouro do champanhe, toca-se o hino de Senhor do Bonfim. E todos se abraçam! Foi nesse momento que amarrei a fitinha, sozinha, sentada num canto escondido, e supliquei por maravilhas na sua vida. Sorte na sua longa caminhada. Amor, saúde, paz...
Os desejos? Esses serão eternamente secretos! Confie em mim, são anseios tão grandiosos quanto...
A fitinha que eu prendi no meu pé direito não foi para mim. É para você! Estará ainda aqui quando você nascer... Ela é branca, e como todas possui a frase “Fita do Senhor do Bonfim da Bahia” escrita nela. É benta. É da Bahia!
Sua vida já é cheia de bênçãos, Anachin!
É uma criança protegida e vigiada por todas as divindades, pela natureza, pelas pessoas próximas a mim, até mesmo por aquelas que estão distantes, mas me amam e se preocupam comigo.
A lavagem da Igreja do Senhor do Bonfim, hoje, celebra milhares de milagres.
Eu, aqui em Jauá, comemoro a sua chegada...