quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A música...


A música...
Um dia você perceberá que nada me faz mais feliz, mais completa.
É com ela que choro, que sorrio, que me esqueço das coisas ruins e lembro dos melhores momentos da minha vida. Uma criação divina! Tenho certeza de que uma coisa tão maravilhosa não pode ter sido idéia de simples humanos como nós...
Eu acordo com a música e durmo com ela. Com certeza o fiz acompanhando algum ritmo, filho. E será com ela que irei criar-te.
As minhas lembranças sobre música são inúmeras...
Eu odiava aquele silêncio da sala de aula nos dias de prova. Não conseguia pensar. Por isso sempre cantava na minha mente músicas durante a realização de alguma, todo o tempo! Do momento que sentava na carteira ao momento que assinava e entregava a apostila à professora. Confesso que não sei tomar banho sem uma boa seleção musical. Hoje, as canto para você enquanto aliso a minha barriga debaixo d’água. Dirigir sem som? Jamais! Tenho cds favoritos para esse momento. Quando estou muito triste e não consigo segurar a angústia, pego a chave do carro e o meu cd country, sigo em direção à Estrada do Côco e só retorno quando me sinto melhor. Choro, choro muito! Depois que a tristeza passa eu sorrio, e começo a berrar as letras como uma louca! Nesse exato momento escrevo para você e escuto Nirvana – unplugged in NY. Ultimamente são as canções que representam meu estado de espírito. Aquela voz... Rasga-me por dentro, me vira do avesso e joga todas as minhas emoções para fora. Fecho os olhos e tudo que aconteceu, desde que descobri que você existia, volta como flashes que me cegam! Dói, mas depois vem o alívio... E começa tudo de novo...
Aperto os olhos numa tentativa desesperada de conter as lembranças, em vão. Elas estão aqui, estarão para sempre, em mim, em você, em tudo que diz respeito a nós...
Não sabes o quanto me condeno todos os dias por fracassar. Eu imaginei outra situação, bem diferente disso tudo. Uma comemoração na descoberta, um abraço de felicidade do seu pai, ouvir “obrigada por ser a mãe do meu filho, o bebê mais lindo do mundo!”, um cuidado excessivo que se tornaria até engraçado e ridículo, a alegria de desfilar com a barriga mais linda (porque está mesmo linda!) de mãos dadas e ter a felicidade em poder dividir os momentos do médico, dos cuidados e toda a preparação para a sua chegada...
Não imagina como é estranho receber beijos do seu avô na barriga, todos os dias, de minhas amigas, de suas tias e de quaisquer outras pessoas, menos do seu pai. É terrível perceber a preocupação alheia conosco, mas não a dele como deveria ser...
É aí que essas músicas entram em cena, como uma tentativa não menos falha de substituir a presença que deveria ser dele. Eu sei que é difícil de entender tudo isso que estou dizendo agora, mas eu prometi a você que não esconderia nem um detalhe da sua história. Essa é a sua história até agora, e preciso dividir com você.
A música...
Consegue ouvi-la? “Come as you are, as you were, as I want you to be. As a friend, as a friend, as an old enemy...”
Tenho a certeza de que está ouvindo, Anachin! Você se mexe como se estivesse dançando, assim como eu fazia! Nossa, como você se mexe!
As músicas...
Expressões sentimentais, de todas as formas do estado de espírito. Melodias mágicas que podem começar ou cessar uma guerra, uma guerra de almas, dos sexos, dos anjos... Poderosos canais de troca de energia. O choro torna-se uma música, assim como o riso, um lamento, um alívio...
O balanço de folhas com o vento, o vento, o bater das asas dos pássaros e seus cantos, o rio... O mar!
Poemas musicados, canções recitadas... Tudo, no fim, vira música!
O sangue da humanidade, a essência da natureza, criações divinas completamente distintas e, ao mesmo tempo, com o mesmo propósito. A música!
A música, filho... Seu momento, todos os seus momentos, a sua história.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Essa idealizada infância...

Ok... A face do sono é a que me domina agora!
Os olhos pesam, o corpo percebe o peso do cansaço (embora não tenha feito nenhum esforço físico!), a mente entra num estado suave de inebriação e já começa a confundir os episódios ocorridos no dia, não processa mais nada! Tudo que desejo é a minha caminha com um travesseiro, um edredon e o ar-condicionado. É exatamente o que estou fazendo agora, esperando o estado alfa, beta, gama...
Se tudo fosse como no desenho do Pluto! Eu não resistia ao ver o pobre cachorrinho caindo de sono e uma miniatura sua impedindo o tão esperado descanso. A pestinha apoiava suas pálpebras com palitos de dente! Hehehe! Mas quando queria fazê-lo dormir, simplesmente jogava um saco de peso sobre os olhos e, se não bastasse, era fácil dar-lhe uma pancada na cabeça... O tadinho desmaiava na hora!
Como era bom assistir desenhos... As crianças não esperam muito da vida, só querem mesmo uma boa diversão, colo e mimos. Acho que ainda não cresci, porque não evoluí muito nos meus desejos. Penso que, se todos aspirassem apenas isso, o mundo não seria tão miserável! Nossa, como as pessoas não pensam nisso??? Quanta burrice! Está provado que a nossa inteligência regride à medida que vamos crescendo. Uma espécie de “evolução involutiva”! Se é que isso existe...
Acho uma brutalidade e injustiça o que fazemos com os nossos pequenos. Tão novos, frágeis, e já carregam nas costas o peso de uma vida inteira programada pelos pais. Tão inocentes e já são rotulados de “futuro da nação” antes mesmo de poderem entender o que significa o amanhã. Para uma criança não importa o que vem depois, é o agora que interessa! E tem coisa mais gostosa do que isso???
Filho, estou dizendo! Sua mãe já foi contaminada, porque me pego imaginando que será um surfistinha poliglota antes dos 10 anos! Imagina! Ahahahah! Já sonhei com nós dois descendo e subindo morros na Chapada Diamantina, dormindo no meio do mato, andando de moto pelas ruas como loucos, surfando lado a lado, descendo de rappel e fazendo muitas outras coisas que eu ainda não tive a oportunidade de realizar sozinha... E nem quero mais! Agora você existe e não há nada que eu possa desejar sem você por perto. Mas quem disse que desejará ir comigo, hein?
Eu já pedi a seu avô para plantar uma nova árvore na frente do terreno, para que quando você tenha uma certa idade eu possa construir uma casa de madeira no topo, com uma barra de escorregar para nós descermos, assim como nos filmes. E pedi a sua avó que fizesse uma pranchinha de surfe branca com o seu nome, para pôr na porta do quarto do hospital no seu nascimento.
Já informei a toda família que não irei batizá-lo. Será uma decisão sua a religião a ser seguida, se for o caso de ter uma. Caso resolva ser católico, escolherá os seus padrinhos.
Defini a cor verde para o começo da sua vida, assim como é a minha. Te imagino como um grande amante da natureza...
Nossa! Só agora percebo que me tornei uma adulta!
Já estou decidindo o início da sua caminhada! Como me sinto ditadora, filhote! Será que você irá se revoltar contra mim um dia por essa idealizada infância???
Não me culpe, mas sim a seus avós. Eles me levaram para acampar, para escalar chapadas, me proporcionaram férias maravilhosas onde hoje moramos. Veja bem! Sua primeira morada será a casa onde eu passava férias! Não é minha culpa...
Tudo bem! Para não dizer que sou má, deixarei você andar descalço, correr na pequena duna na frente do terreno e se sujar todinho de areia. Poderá ajudar sua avó a alimentar a família de micos, todos os dias, e também catar os ovos das galinhas que seu avô já te deu, sua primeira herança! Prometo deixar-te jogar grãos para os pássaros e ir brincar no parquinho do condomínio, todas as tardes, assim que o sol cair. E juro que não impedirei que entre na piscina, que brinque com as ondas desse marzão maravilhoso que temos. Irei te embalar muitas noites ao som dele...
Ainda zangado? Ok... Prometo te amar, te amar e te amar. Muito! Mais do que tudo!
Sonho com a nossa volta para Londres e lá te proporcionarei uma vida diferente. Mas enquanto estivermos aqui em Salvador, baby, é apenas isso que posso oferecer no momento. Espero que seja do seu agrado...
Tentarei ser seu pai, sua mãe, sua amiga e companheira. Sua amante, sua amada, sua eterna namorada... Uma eterna apaixonada!
E se por algum momento eu falhar, perdoe-me! Eu só estou tentando ser a sua mãe.
Estou apenas tentando ser uma criança novamente, para te acompanhar. Estou procurando em mim a infância perdida que se tornou parte de minha memória mais secreta. Tento achar dentro de mim, mesmo que seja ainda em sonhos, a companhia perfeita para você. Não pretendo ser mais velha e nem mais experiente. Quero ter a sua idade, sua mentalidade. As crianças são muito mais sábias e sinceras. Os adultos só não aceitam isso... Não aproveitam a segunda chance que a vida dá para reviver a melhor fase que já tiveram, algumas pessoas até de viverem pela primeira vez.
Eu não quero perder essa oportunidade...
Hum... Acho que o bichinho do sono está tentando fechar os meus olhos, filho.
Uma maravilhosa e tranquila noite!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

No words

Bom… Serei breve.
Não quero falar. Hoje estou assim, quieta.
Sem pensamentos, sem palavras, sem ações.
Em um segundo, todas as idéias que estavam aqui se foram!
Eu queria ter algo para te dizer, filho. Acontece que às vezes sinto como se um vento gelado invadisse a minha cabeça e congelasse tudo! Não consigo sair dos cenários do passado, não consigo sequer idealizar um futuro próximo!
Me desespero porque sei que você estará aqui em breve, e seus olhos estarão sempre famintos de uma imagem perfeita. Uma mãe perfeita. Palavras que não decepcionam e nunca, nunca o silêncio. Jamais uma postura indecisa e insegura, inaceitável qualquer tentativa de evitar-te.
Às vezes os filhos assustam e só entendi isso quando me percebi mãe. Quantas vezes chorei por saber que você estava vindo... Te desejo, suplico para que o tempo passe voando só para te ter nos meus braços. Mas me assusto, sim! Estou em pânico, não posso negar.
Uma coisinha pequena que está tomando uma dimensão incrível! E a cada dia mais percebo a minha personagem como coadjuvante nesse filme. Você é o meu astro principal! E eu que achei que era a estrela maior de todas! Um dia pensei assim...
A gravidez perfeita, o filho perfeito, a vida que poderá ainda ser perfeita...
O medo que se transformará em amor, mais amor! A dor que significará nascimento. O choro que pede colo. O seio que representa a maternidade. As noites em claro, admirando o rosto mais lindo e familiar, o reflexo de uma história. Uma história...
Muitas histórias! Tantas que me perco, não consigo administrar na minha mente exatamente quando tudo isso começou.
Prometo tentar...

domingo, 11 de janeiro de 2009

As duas faces da vida


Acho que eu estava um pouco decepcionada ontem, confesso! Bom… Todo mundo tem esses dias, creio eu. Mas não retiro uma palavra do que disse, se pudesse lutar contra o sono diria muito mais coisas, hehehe! Após postar no blog voltei para o quarto, com a finalidade de descansar o corpo e, principalmente, a mente. Mas as minhas vistas se voltaram (como sempre!) para o único retrato que trouxe de Londres comigo. Uma foto minha e do seu pai na nossa última viagem juntos, Dublin. A foto é linda, a minha amiga Naiagia captou uma cena de beijo no meio do parque mais famoso da cidade (nao me recordo o nome do local), no primeiro dia de passeio. Eu já sentia a sua existência, só não queria acreditar na minha intuição. Não queria assustar o seu pai no meio das férias que ele tanto programou para passarmos juntos. Eu estava em pânico! Mas segurei a angústia até onde pude. Só dividi com ele a possibilidade de gravidez no nosso último dia de viagem. Mesmo eu já sentindo um certo distanciamento por parte dele, filhote, ainda assim fomos felizes naqueles dias. Se hoje você me vê com um olhar triste e perdido, pode ter certeza de que eu não me sentia assim quando estava perto dele…
Admiro sempre essa foto e me transporto imediatamente para aquele cenário. Como um transe, faço uma regressão ao momento do beijo. Lembro-me bem que, após isso, sentamos perto de uma fonte para esperar pelo fim do ensaio fotográfico de Nai e Migul. Um pássaro pousou bem pertinho de nós, lindo! E seu pai tirou fotos, e estávamos rindo ao assistir as mil poses de Nai, enquanto Migul a seguia com a câmera. Sabe aquela cena de filme que sempre desejamos viver equanto românticos convictos? Pois é… Foi bem assim!
O engraçado é que essa foto resolveu deslizar pela moldura, ficando aparente apenas as nossas cabeças. Eu sempre a conserto, como numa tentativa de congelar o passado. Incrível! Ela deslizou novamente! Parece até sinal…
Um mês após estava no Brasil e você nao era mais uma sensação, mas sim uma certeza! Hoje a foto está exposta na instante do meu quarto e me sinto a mais tola das mulheres por continuar sonhando com um novo dia como aquele. Por mais que fiquemos juntos como casal, aquele dia jamais acontecerá de novo! Nada mais será como antes. Nunca é, filho!
Ontem fiquei olhando para a moldura e pensando sobre as duas faces da vida. Para tudo há dois lados, e sempre devemos identificar onde estamos exatamente. Inaceitável permanecer em cima do muro.
As duas faces da morte, a de quem vai e a de quem fica; as duas faces do nascimento, a de quem chora assustado ao nascer e a de quem chora de emoção ao ver nascer; as duas faces da guerra, a de quem invade e a de quem é invadido e foge; as duas faces da agressão, a de quem bate e a de quem é espancado; as duas faces da dor, a de quem sente e a de quem assiste e se sente impotente; as duas faces da felicidade, a de quem a promove e a de quem é contemplado.
As duas faces do amor, a de quem ama e a de quem é amado…
As duas faces de um laço, uma mãe e um filho.
As duas faces da vida! Sempre opostas e tão próximas!
Você vai nascer só, querido. E vai morrer só. Essas duas faces de início e fim da vida serão apenas suas no seu momento. Eu estarei aqui para te abraçar quando você vier, e espero que você esteja aqui para me abraçar quando eu me for. É a maneira mais próxima de dividirmos a mesma face. Impossível chegarmos mais perto…
Na verdade, eu e seu pai já compartilhamos as duas faces, quando fizemos você. E eu desejo muito que ainda possamos compartilhar a face da emoção de te ver chegar a esse mundo, nos nossos braços. Seríamos três pessoas felizes nesse momento, e nada mais importaria! Nem o passado, nem o futuro… Apenas aquele momento único e mágico!
Na foto, querido, já éramos três. Você já existia naquele episódio. Hoje podemos estar longe do seu pai, mas muitas vezes você foi envolvido por seus braços ao nos deitarmos, antes mesmo de sabermos que um bebê nosso estava dentro de mim. Muitas vezes nossos abraços já foram de três. Nossas alegrias, passeios, carinhos e juras de amor.
O início e o fim são as duas faces que se transformam em um ciclo vicioso da vida de qualquer indivíduo.
O início da sua história está nessa foto, a primeira face de muitas que irão surgir.
O fim…

sábado, 10 de janeiro de 2009

BOA SORTE!

São dez horas da noite de sábado e eu estou em casa escrevendo para você, pequeno. Há alguns anos não existiria essa possibilidade, até mesmo porque não poderia sequer imaginar que você estaria vindo assim, tão depressa e de uma maneira inesperada…
Ultimamente não tenho saído de casa. Não me agrada mais a idéia de estar em público, em barzinhos ou boates, nem mesmo a vontade de comparecer em reuniões em casa de amigos existe. Tomar um bom banho e passar um hidratante, vestir uma camisola confortável, sentar para assistir a novela do horário nobre tomando uma sopa de legumes ou caldo verde e, após tudo isso, escrever aqui para você acompanhada de um delicioso copo de coca-cola geladíssimo, isso sim! Isso sim é a melhor das diversões para mim no momento.
Quer saber? Estou cansada de presenciar a vida imitando a arte! O dom artístico das pessoas está cada vez mais aguçado, já não sabemos mais quem está desempenhando o seu papel natural ou quem está apenas tentando ganhar o Oscar! Fica difícil sustentar uma conversa, acreditar nos textos pré-programados é um sacríficio sobre-humano. Ver a novela, por mais mentirosa e ridícula que seja, está me parecendo algo mais prazeroso…
Filho, um dia você vai perceber e não tem escapatória! E provavelmente um dia você também irá fazer o mesmo com alguém, até perceber que se tornou um pouco daquela marionete ambulante da pós-modernidade. Se livrar das cordas será uma tarefa árdua e praticamente impossível, tão dolorosa quanto tirar a sua propria pele… Hoje, escrevendo isso para você, me sinto um pouco dentro da Matrix, como se eu tivesse arrancado aqueles cabos de energia da minha cabeça e estivesse lutando contra o computador que nos guia. Você irá enxergar, Anachin, que é muito mais fácil julgar as pessoas por seus próprios erros. Que todos serão sempre o seu espelho e verá os seus defeitos refletidos nos olhos do próximo, do mais próximo, mas nunca em você. Perceberá que está apto SEMPRE a dar conselhos, mas nunca a ouvi-los. Que as suas idéias são as mais viáveis e justas, e que seus erros não serão erros, mas atitudes justificáveis. Você NUNCA admitirá que suas ações foram vergonhosas ou até mesmo apenas equivocadas. Mas o seu amigo, ou aquele indivíduo que foi mencionado nas páginas policiais ou de fofocas, esses sim! Sempre tiveram comportamentos duvidosos… Na sua família não terá homossexuais ou viciados, jovens vagabundas, ladrões, enfim! Nenhum componente que a sociedade classifica como “pessoa com desvio de caráter”. Se a vida não te liberar disso, você dará um jeito de ocultar. O seu clã é PERFEITO! Pelo menos aos olhos famintos da aglomeração social precária que chamamos de CIVILIZAÇÃO.
Aqui já existe uma troca de favores entre as partes interessadas. Um jogo de xadrez que não terá fim, nunca! A arte imita a vida, a vida imita a arte, e tudo se confude. Todas as peças já não possuem mais diferenças, são todas a mesma porcaria feita do barro da inveja, cobiça, vaidade, fúria, gula, preguiça e luxúria. Você acha que é importante, mas não passa de um figurante sem propósito e descartável dos filmes de Hollywood. O psicopata sempre está à solta, pronto para te armar o bote na primeira esquina fria e escura. Não tem escapatória! No final, só o mocinho se salva.
Desculpa, filho, se pareço revoltada e desiludida com a vida, não é bem assim… Mas é meu dever de mãe te alertar para o filme que está prestes a assistir. Eu sou a sua censura até então, e é meu dever te dar toda a sinopse antes de você clicar no botão “play” do controle remoto. Queria muito poder te dizer que o cenário ainda é tão belo e natural quanto o de “E o vento levou”. E que a vida ainda é uma comédia muda e hilariante como “Os tempos modernos”. Épocas diferentes, valores diferentes, filmes diferentes…
Sei que irá me julgar, me condenar e até me rejeitar em alguns momentos da sua vida. Acredite, uma pessoa como eu não é tão levada à sério assim… hehehe! Quem seria tão louco a ponto de se expor dessa maneira, sem razão alguma aparente, em rede pública? Mas um dia você irá concluir que fui a figura mais honesta e sincera que cruzou o seu caminho. Na nossa convivência você vai perceber que não acredito em “jeitinhos” e falar a verdade, por mais que machuque, é sempre a melhor solução. Sem hipocrisia ou eufemismos. Sei que por isso sou julgada socialmente, mas acredite que sempre tenho a consciência tranquila. Isso que mais prezo, a paz e tranquilidade de espírito. Por isso decidi lutar contra esse ridicularismo social e ignorar os padrões éticos criados por pessoas que se consideram modelos de vida.
Tenho ciência de que, às vezes, minhas palavras chocam. Alguns amigos me valorizam justamente por essa atitude agressiva e, de uma certa maneira, aparentemente imatura. Outros não aceitam e apenas entram no jogo de xadrez, como bons adversários…
Acredite, poderia passar horas escrevendo centenas de folhas sobre esta minha estranha visão de vida. Nao posso afirmar se estou certa ou errada, apenas aceito a maneira que penso, é nessa realidade que me sinto mais protegida. Estou, simplesmente, fazendo o mesmo joguete que todos, só que do lado oposto…
Cansei, filho… Cansei e tenho a obrigação de te mostrar o que vejo em tudo isso aqui. Gostaria muito de poder te proteger de tantas coisas! Queria mesmo poder te poupar de sofrimentos que parecem desnecessários, mas nunca são! Vai doer em você, vai machucar a mim. Mas são precisos! Assim que você vai poder escolher o caminho a ser seguido.
Como qualquer boa mãe, não me importo de me expor para abrir os seus olhos e te preparar. Agora só me resta te desejar BOA SORTE!

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Who wants to live forever?


Ah, filho! Sabe quando, às vezes, nos sentimos vazios? Foi exatamente assim que me senti ontem, tanto que nem consegui escrever aqui para você. Eu estava assistindo a um filme com o seu avô e de repente me percebi assim, vazia. Highlander, A Origem. O último de Duncan Mcleod, adoro! Parece uma história boba até, mas me delicio tanto com a idéia da imortalidade que me interessei por essa personagem desde a primeira vez que a vi, quando criança. Lembro-me bem de quando, ainda com menos de 1,5 metro de altura, chorava às noites na minha cama, em silêncio, olhando para uma moldura com a foto do meu pai que ficava presa na parede do meu quarto. Eu temia demais a morte dele, pedia todos os dias a Papai do Céu para nunca matar o meu pai, para mantê-lo vivo para sempre. Na verdade eu orava olhando para a foto dele, mas suplicava também por minha mãe e minha cachorrinha poodle da época. E por mim, claro! Mas a Binnie morreu…
Depois cresci, já estava com 19 anos e chorava às noites por temer a morte do primeiro homem da minha vida, um grande e verdadeiro amor. Ele tinha 11 anos a mais e eu já pensava na nossa velhice juntinhos, mas lembrava muito bem da diferença de idade. Sofria a sua morte antes da minha por antecipação. O que eu faria pelo resto da minha avançada vida sem ele por perto? Nossa, como sofri! Terminamos o namoro não por falta de amor, mas por discordâncias, por seguirmos rumos completamente opostos, por possuirmos idéias totalmente divergentes. Às vezes o amor não é suficiente, Anachin… No nosso caso, por exemplo, não foi. Ele morreu menos de dois anos depois do rompimento e então vi que eu não estava sofrendo por tanta antecipação assim. Tive que aprender a conviver com a dor de não tê-lo mais por perto desde a minha juventude. Nessa época eu ainda temia por meus pais, por meu cachorro Mix (meu maior companheiro) e por ele. A vida levou o meu amor e o meu melhor amigo…
Seria maravilhoso se fôssemos todos imortais! Ontem, após assistir ao filme, me senti tão vazia! Precisei deitar, e pensar… Pensar! A imortalidade, tudo que eu sempre desejei antes de ter mesmo a noção de que era um sonho impossível. Se isso fosse alcançável eu poderia viver muitas vidas, poderia ser muitas pessoas e ter muitas idéias diferentes. Seriam experiências inacreditáveis! Tenho certeza de que a maioria das pessoas já pensou sobre esse assunto...
Eu poderia me arriscar com toda a imprudência, não teria medo de experimentar todas as drogas e curtir as maravilhosas sensações descritas por usuários, maravilhosas mas bem menos virtuosas do que a nossa simples vida de mortal. Seria grandioso poder ter muitas profissões, viajar todo o mundo, teria tempo suficiente para trocar de filosofia de vida! De tempos em tempos eu seria uma personagem diferente, com visual modificado e ar inusitado. Nossa, filho! Volto a ser a criança sonhadora de antes sempre que penso nisso!
Se fôssemos imortais não haveria a sensação de que “aquilo que deveria ter sido, não foi. E o que pode ser, nao será”. Não sofreríamos por algo irremediável, seria possível corrigir qualquer erro cometido. Cada dor que te fosse causada, seria fácil curar. Bastaria morrer e renascer para uma nova vida, para um começo. Começo, não seria recomeço, sempre tudo novo! O velho que sempre seria novo…
Um dia, há alguns anos, me veio uma frase tipo filosófica em mente e isso passou a fazer algum sentido. Talvez tenha sido um presente divino depois de tantas súplicas por um caminho para o “FELIZES PARA SEMPRE” dos filmes da Disney. O pensamento estava certo e só agora eu entendi como atingí-lo.
“A imortalidade só é alcançada por aqueles que são capazes de escrever a sua própria história”.
Hoje, além de temer por meus pais, receio por você, querido. Preciso mais do que nunca ser imortal. Não para mim, mas para você! Para seus filhos e seus netos... Quando digo que este blog é o melhor presente que eu poderia te dar é exatamente neste sentido. A eternidade. Não apenas a minha, mas a sua e a de seu pai. A de seus avós, dos amigos de sua mãe, da sua família.
Ah! Uma coisa mais que não mencionei. No filme, os incansáveis guerreiros procuram a fonte da vida e o segredo da imortalidade. Depois de lutas seculares e massacrantes, Duncan Mcleod, por mérito, foi o escolhido para conhecer a verdade. Sabe qual foi a revelação inesperada? Um filho…

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

A Espanhola


De frente para o meu quarto tem um quadro que já acompanhou a minha família em todas as residências que tivemos, por todos esses anos. A Espanhola…
A pintura é feita em cima de um espelho retangular e a dançarina está em postura de quem vai atrair todas as atenções, com um vestido comprido de alças e decote nas costas, preto, com as saias rodadas e rosadas, de vários babados. Uma sapatilha com enorme salto, o cabelo preto e preso num coque, e ela está numa sala que possui uma mandala verde e amarela por trás de uma parede de tijolos e uma porta em formato de arco. Para completar o cenário, há um vaso verde com detalhes dourados numa faixa preta, quase ao meio do objeto.
Desde pequena eu me via naquela espanhola, sentia uma conexão inexplicável com a obra. Sempre gostei de dançar, mesmo antes de saber andar. Ensaiava saltos descompassados, cantava músicas desordenadas e tinha a certeza de que era uma estrela! Lembro-me bem das festas em que participava de gincanas e sempre ganhava a medalha de ouro… hehehe! Ninguém conta a história da Emilia Iguatemi melhor do que a minha mãe, mas esse conto fica para um outro dia…
Eu tinha a certeza de que seria famosa, conhecida por qualquer pessoa e querida, muito querida. Como uma boa baiana, estava convicta de que seria cantora de Trio Elétrico, tão famosa quanto a Marcia Freire da época e a Ivete de atualmente. Queria muito viver da música, da dança, da fama… Não sei onde me perdi, filho! Há quem diga que eu tinha talento.
Eu sempre olho para esse quadro, enfim, e penso no quanto eu gostava de dançar. Me sinto tão livre! Nao necessito de aulas, simplesmente fecho os olhos, respiro fundo e deixo a melodia invadir o meu corpo. O ritmo cuida do resto, não preciso me preocupar com passos, como se a música tomasse conta das minhas veias, como se as cifras se transformassem no ar que penetra nos meus pulmões.
Ah, quando me recordo das muitas noites da Heaven! Londres já foi cenário de inúmeras memórias, mas as noites de segunda-feira foram ímpares! Eu só precisava dos meus óculos escuros, de dois bastões luminosos e pronto! A música alta tomava conta de tudo, nada mais passava na minha mente além de passos inéditos. Acho que a Ana Paula, o Miguelão, Miguelito e a Elaine, além de outros muitos amigos, podem descrever essas cenas melhor do que eu. Como era bom, nossa! Eu me sentia uma pessoa importante naqueles momentos, rodeada da melhor platéia, os meus queridos amigos. Eu sentia a leveza, a beleza, a alegria de estar no lugar certo com as pessoas certas. Se não fosse você, filho, eu trocaria meus dias atuais por aquelas noites em Londres, sem pensar duas vezes! Eu fui muito feliz…
Hoje penso como será bom dançar com você. Para você e por você. Outro dia estava conversando com o seu pai no msn (não imagina como é estranho ter esse contato virtual com o homem que compartilhou comigo a sua existência, filho) e estávamos falando sobre meus desejos futuros. Ele me pediu para citar um deles e eu disse que sonhava com o dia em que estaremos os três dançando, abraçados e felizes. Ele ficou mudo por um momento e disse: “Yeah, it would be nice…”
Seria sim, seria maravilhoso!
Será… Não importa a quantidade de bailarinos no nosso salão, será sempre um espetáculo!
Vamos acompanhar os passos da espanhola, a bela dançarina do quadro que presenciou toda a minha infância e juventude. A linda mulher do vestido rodado que me inspirou a ousar ritmos, lugares, idéias e experiências jamais vividas. A Espanhola, minha personagem principal, numa cena que, por mais simples e congelada num espelho retangular, me levou a delírios da Heaven e, por fim, a você…